Kitty's Place

terça-feira, março 08, 2005

Dia Internacional da Mulher

Mutilar (via Infopédia)
Verbo transitivo
1. privar de um membro;
2. cortar um membro ou parte dele a;
3. figurado deturpar;
4. figurado truncar;
5. figurado destruir parte de; estragar;

Verbo reflexo
fazer mutilação a si próprio;

(Do lat. mutiláre, «id.»)

O dia 8 de Março é comemorado pelas Nações Unidas como o Dia Internacional da Mulher desde 1975.

Naturalmente hoje é um dia que suscita muitas piadas por parte da classe masculina, daquelas do género: "as mulheres têm um dia, mas o resto do ano é nosso". Já hoje ouvi bastantes.

São apenas piadas inofensivas? Sinceramente não me considero feminista, mas não lhes acho graça nenhuma. Provavelmente aqui, na cidade, na grande cidade, até poderão ser inócuas, mas temo que a realidade seja bem mais penosa.
Há, de factos, muito sítios que as mulheres nem sequer podem reclamar a vida como sendo suas, quanto mais um dia. Nada têm de seu.

As estimativas oficiais dizem que, mundialmente, 135 mil mulheres foram vítimas de mutilação genital, estando 2 milhões em risco anualmente (cerca de 6000 mil diariamente). Como será fácil imaginar esta prática marca física e psicologicamente as meninas que a ela são sujeitas.
Desengane-se quem pensar que isto apenas ocorre em África. Por exemplo, Portugal trata-se de um país de risco: recebe comunidades imigrantes oriundas de países africanos, onde estes costumes têm uma incidência de 50%.

As crianças, geralmente entre os 4 e os 12 anos, são levadas a uma curandeira local, que procede à mutilação (em alguns países é feita por pessoal médico qualificado – pessoas conscientes da barbárie que comentem). A Organização Mundial de Saúde (OMS) e a UNICEF classificaram os seus diferentes tipos da seguinte forma:

  • Clitoridectomia: excisão do prepúcio, com ou sem excisão de parte ou totalidade do clítoris;

  • Excisão: excisão do clítoris com parcial ou total excisão dos lábios menores;

  • Infibulação (a mais radical – atinge 15% das mutiladas): excisão da parte ou totalidade dos genitais externos e coser da abertura vaginal deixando apenas um pequeno orifício para permitir a passagem de urina e do fluxo menstrual;

  • Sem classificação – inclui práticas como o piercing, inserção de substâncias corrosivas ou ervas na vagina.
A ferida fisicamente cicatrizará, se não falecer, mas a chaga perdurará na sua alma, até ao final dos seus dias.
Caso lhe seja aplicado o mais duro dos tipos de mutilação, a jovem terá ainda que passar pela humilhação da desfibulação – quando o marido, com uma faca, abre os seus genitais, anteriormente cozidos. Mas a atrocidade não fica por aqui: a vagina será cosida e descosida tantas vezes quantas as que o marido desejar ter relações sexuais ou no caso de um parto.

Este ritual, normalmente, é realizado em cabanas simples ou mesmo ao ar livre, sem quaisquer condições sanitárias. As mutilações chegam a ser feitas em série, sem anestesia, recorrendo sempre às mesmas lâminas, facas ou mesmo vidros partidos, sem qualquer desinfecção ou lavagem prévia.

Não é, portanto, de estranhar que esta prática resulte na morte de quase metade das mutiladas. Quem sobrevive terá que suportar as dores, as infecções, a incontinência e o trauma.

Porquê a continuação de uma prática aberrante? O homem tem um papel fundamental neste costume horrendo. Assim garante que casará com uma virgem, reduz a probabilidade de infidelidade, garantindo a paternidade dos seus filhos. Para além disso criou-se o mito de que as mulheres não podem ter prazer com o sexo.

A primeira iniciativa que o parlamento português teve, para legislar sobre este tipo de mutilação, no ano passado, fracassou. Considerou-se que o Código Penal já a prevê e a pune com prisão. Houve mesmo um deputado do PP que considerou a importância do clitóris como "algo subjectiva"(Notícia Público). Então e se estivéssemos a falar de amputações de pénis. Será que seria assim tão subjectivo? É exactamente a mesma coisa.

Este é apenas um dos motivos que me leva a não achar graça às piadas inerentes a este dia. Não enquanto atrocidades destas perdurarem.

(E este é apenas um dos muitos exemplos de violência, que a mulher sofre, diariamente, em todo o mundo. Se quiserem podem verificar os números publicados pela Amnistia Internacional).

Ah! Mas que estou eu a fazer?! É o dia de comemorar... aquilo com muito sacrifício já foi obtido. Para piadas? Talvez seja um dia, hoje não.

Saber mais sobre o assunto, como fazer algo para ajudar: Campanha Amnistia Internacional; dw_world.de; Acime; Público; cpihts.com; A página; JornalismoPortoNet.

6 Comentários:

Blogger francis said... (7:07 da tarde)

Parabéns pelo dia da mulher. Embora ache que o dia da mulher deve ser todos os dias, bem como o dia do homem e da criança.
Quanto a esse deputado do PP, só encontro uma explicação para as suas ideias: O rapaz não tem pénis!
Um grande beijinho :-)

 
Blogger Kitty said... (9:14 da tarde)

Pois, todos os dias são importantes não é só hoje! :-)

Esse senhor não lhe deve faltar só o pénis... o tico e o teco também devem ter emigrado, tal era a repulsa que sentiam por tal personagem...

 
Anonymous TheStudio said... (12:46 da manhã)

Sempre ouvi dizer que um dos grandes benefícios da imigração são as tradições culturais que trazem com eles. Quem assim pensa é algo que pode aprender com eles (a tradição das excisões).

Quanto ao deputado do PP tem razão, o clitoris não desempenha qualquer função relevante na mulher, ao contrário do pénis que é necessário para proceder ao acto reprodutivo.

Além disso eu recordo-me desse assunto ter sido debatido. O que foi dito, e com razão, era que qualquer prática de mutilação já é considerada crime (e com pesadas penas). Que mais querem que o Governo faça?

 
Blogger Kitty said... (11:31 da manhã)

Nem sei porque perco tempo em responder a este indivíduo. Dizem que temos sempre qualquer coisa a aprender com todas as opiniões mas, sinceramente, aqui não vejo o quê... Talvez apenas a virtude da paciência e calma que é preciso ter para não lhe responder à letra.

Uma coisa é certa: a mãe deste jovem não teve prazer nenhum ao tê-lo e ninguém com que ele se relacionar há-de ter. Afinal de contas ele nem sequer sabe para que serve um clitóris.

Provavelmente a especialidade são os pacotes...

 
Blogger RossiSpyder said... (12:30 da tarde)

Por o deputado do PP "ter razão" é que tiveram os resultados que tiveram...
Cada um é livre de ter a opinião que tiver. Mas parece-me que este tipo de senhores devem utilizar formas de auto-prazer muitas vezes...Não me parece que saibam o que é uma mulher...

 
Blogger Wakewinha said... (6:28 da tarde)

Kitty, adorei este post sobre o Dia Internacional da Mulher!
Para além de informativo, serve simultaneamente como um abanão para os mais distraídos e que continuam a menosprezar a Mulher.
Keep on doing the nice work... =)

Voz Oblíqua vs. •▪•●Brainstorming●•▪•

 

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