Kitty's Place

quarta-feira, janeiro 26, 2005

WLK: Lesmas-do-Mar

Este é o post inicial da nova rubrica “Wild Life by Kitty”. Espero que gostem ou o Sr. Gato terá que se entender comigo!


Sr. GatoQuando me convidaram para apresentar esta nova rubrica fiquei em pulgas! Atenção: não foi com pulgas, ou julgam que o Sr. Gato não é asseado?
Uma oportunidade destas não se perde. Ainda para mais fiquei responsável, não só pela apresentação, como também pela selecção do tema.
Foi então que comecei a ficar nervoso. O prazo limite para entrega do “material” estava a aproximar-se e esta pressão medonha sobre mim tem um efeito adverso. Sou só um pobre gato - são implacáveis nestas coisas: “ou as metas são cumpridas ou arranja-se outro”.
Podem arranjar outro, mas não será do meu calibre!
Onde é que eu ia? Ah! Isso! Sou responsável pela escolha do tema.

Hoje vou falar-vos sobre as lesmas-do-mar.

Porquê este animal? É simples: recordei no outro dia as férias de um verão passado. Não é que já tive o prazer de ver estes animais ao vivo, na Praia de Odeceixe? Bom, depois de procurar informação fiquei sem saber se realmente se vi lesmas-do mar ou lebres-do-mar (possuem uma concha interna)...
Ainda lhes tentei dar uma sapatada, para ver se seriam boas para comer, mas rapidamente recuperei a compostura, ao que os pobres animais muito me agradeceram. Afinal de contas um gato com o meu porte não deve ceder à vil tentação de tentar comer tudo o que encontra pela frente.
Recordei-me ainda que os EUA, na Expo 98, também as tinha apresentado no seu pavilhão. De acrescentar o mau gosto de deixar toda a gente tocar-lhes. Gostavam que toda a gente vos passasse a mão pelo pêlo? Ora, elas também não!

As lesmas-do-mar são moluscos gastópodos, mais concretamente opistobrânquios, relativamente aparentados com lapas e burriés. No entanto, há algo que as distingue dos mesmos: não têm concha.
Sendo assim, desenvolveram substâncias químicas bioactivas, para sua defesa, uma vez que sem a protecção da concha seriam presas fáceis para os predadores.
Lesmas-do-Mar
(Foto: Lusa)

As suas cores vivas e as suas armas químicas tornam-nas capazes de afastar os predadores para bem longe, podendo até provocar-lhes a morte.

Estas substâncias, que garantem a defesa destes animais, têm sido alvo de intensos estudos pois revelam um potencial farmacológico, nomeadamente na área de novos anti-cancerígenos e analgésicos.

Em Portugal decorre um estudo, muito importante, no Instituto Português de Macologia (associação científica sem fins lucrativos, que se dedica ao estudo dos moluscos), sediado no Zoomarine. O objectivo do mesmo é o desenvolvimento de técnicas de cultivo destes animais, tentando conhecer os seus ciclos de vida, pouco abundantes na natureza.
As lesmas são muito pequenas e, para que sejam efectuados estudos nos laboratórios, são necessárias quantidades consideráveis de exemplares. Segundo Gonçalo Calado, o Presidente do IPM e coordenador deste projecto, já sucedeu serem necessários 213 kg de matéria fresca apenas para retirar 0,13 mg de substância.

Exemplos da importância deste estudo são o AZT, um dos químicos mais utilizados no tratamento da SIDA, que foi sintetizado a partir de uma esponja do mar das Caraíbas e o analgésico mais forte do mundo, que foi retirado de uma espécie de caracol (é cerca de 50 vezes mais poderoso que a morfina).

"Trata-se de retirar uma lição de humildade da natureza e perceber que não é num laboratório que, a partir do nada, vamos criar uma molécula com a mesma força do que uma que durante 150 milhões de anos evoluiu" - Gonçalo Calado, à Agência Lusa.


Fontes: Portal do Governo, SIC
Fotos: Vinagreiras (lebres-do-mar), opistobrânquios dos Açores

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