Kitty's Place

sábado, novembro 27, 2004

Dia da Memória

Breve Nota:
O texto foi escrito originalmente dia 21/11/2004.
Quem já passou por tal situação não se zangue, nem me leve a mal. Foi a pensar em vocês que escrevi este texto, especialmente num amigo muito querido.



Dia 21 de Novembro de 2004 – o dia da Memória, em Portugal e na Europa. É, em meu ver, sem dúvida, um grande motivo para reflectir.
Dia da Memória – o dia em que se recordam as vítimas de acidentes de viação. Uma atitude nobre, a de quem se lembrou de providenciar este dia, desde que tenha realmente algum efeito prático. Como diz a sabedoria popular “De boas intenções está o inferno cheio”.

Aqueles que já foram vitimados ou os familiares dos que foram retirados abruptamente desta vida por causa de uma estupidez, deles ou de terceiros, mas SEMPRE UMA ESTUPIDEZ, jamais esquecerão o que perderam ou pelo que passaram. Não vai ser este dia que lhes trará conforto.
Portanto, trata-se de um dia para os restantes MORTAIS. Cabe-nos a nós perceber o que sucede todos os dias nas nossas estradas e, receio bem, continuará a acontecer.

Somos os últimos na Europa em tudo, excepto em factos como o n.º de acidentes de viação e outro tipo de estatísticas que nada abonam a nosso favor, como por exemplo, o alcoolismo... Ah! Se calhar até são dados que estão interligados, não?!

Enfim, enquanto se continuar a apreciar o tipo de comportamento “Eu sou um verdadeiro herói, eu bebo e nada me acontece” ou então “Fogo pá, fui apanhado pela Polícia, que AZAR!” não chegamos a lado nenhum, pelo contrário, continuaremos a retroceder em relação ao velho continente. Não é azar nenhum ser apanhado pela polícia, é simplesmente o que estávamos a pedir. É o castigo justo para a nossa infracção.

Não. Não estou com isto a querer dizer que concordo com a revisão do código da estrada, que vai ser aprovada dentro em breve, apenas irá ter consequências financeiras nos nossos bolsos, sem qualquer efeito realmente pedagógico.

Mas a realidade é que os prevaricadores são tidos como verdadeiros exemplos a seguir. Onde está a lógica disto?!
Já ouviram alguém falar da sua proeza de sair à noite e NÃO BEBER uns copos?! Claro que não, isso não é “cool”, não traz valor acrescentado ao CV social.

Outro aspecto que me repugna nisto é, não sei se é uma característica do ser humano, em geral, ou apenas do português, em particular, o facto de sermos adeptos da morbidez.
Quando vão calmamente, ou não, a conduzir por essa estrada fora e vêem umas luzinhas azuis, de ambulância, não conseguem deixar de tentar ver todos os pormenores do sucedido, de tal forma que, por vezes, o acidente mais grave se dá na faixa contrária ao inicial. E para quê, para lhes sair um jackpot? Neste caso é provavelmente massa encefálica espalhada pelo asfalto. Logo a seguir soltam um verdadeiro “Que horror” e, provavelmente, um suspiro de alívio. Afinal de contas é outro ser que está por ali retalhado e não eles.

Em primeiro lugar porque é que olharam? Para alimentar a morbidez que os habita e exige que vejam todos os pormenores suculentos.
Em segundo, bem lá no fundo, o egoísmo leva-os a sentirem-se reconfortados por ter acontecido a outro e não a eles.

Infelizmente, a crença aponta para que “o mal só acontece aos outros”. Lembrem-se, qualquer dia são os nossos coágulos de sangue que estão a cobrir uma qualquer superfície na rua, e aí seremos nós o circo para a restante humanidade.
Nesse dia será demasiado tarde para precisarmos de um “dia da memória”. Seremos nós ou os nossos entes queridos que o alimentam, todos os dias, todos os anos, não apenas no dia 21 de Novembro.

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